Irmãzinha | Conto
Mamãe quis coser meus lábios com seus ossos de agulha tão logo abri a boca. Encaixar uma linha preta em sua falange osteoporótica e transpassar a carne macia até sentenciar a língua ao mutismo do cárcere.
— Suas palavras são mordidas, mulher ruim —, estapeou-me o rosto de maçãs rubras do Éden, ainda na delegacia. Como se ela não enfiasse o pulso cheio de braceletes entre meus dentes. Sua mão, cerrando meu maxilar contra a pele flácida até o céu da boca virar inferno.
Ouçam: eu jamais faria de Nina um monstro.
Sei que são intragáveis as frases que tomam forma em minha garganta. Sou a primeira a sofrer seu amargor. Mas só pronuncio o que presenciei. E, se repito meu depoimento, o suco gástrico ameaçando escorrer pelo queixo, é porque preciso que encontrem minha irmã – seja o rastro deixado por ela de virtudes, como insiste nossa mãe, ou, como testemunhei, de destruição.
Estava em pleno gozo de minhas faculdades mentais quando Nina cruzou meu umbral com sua bebê adormecida e uma mala nos braços. Havia discutido com o marido e queria um lugar para pernoitar.
Deitamos na cama, minha respiração embaçando seus dentes, e perguntei o que havia acontecido. Seus olhos eram moscas frenéticas a rondar uma mesa posta, apesar da exaustão violácea que os circundava. Sem dizer palavra, pôs a mão direita sobre a minha boca, e eu ri contra sua palma suada. Com a outra, levantou a blusa de cetim, e a acidez do vômito me açoitou as papilas.
Marcas antigas de cigarro formavam o símbolo do infinito ao redor do seu umbigo, e bolhas purulentas, do tamanho de moedas, espalhavam-se pelas costelas. Logo abaixo dos seios que ainda amamentavam, luzia uma faixa seca como o couro das jaquetas de nossa adolescência. Ferida negra como carvão, o músculo carcomido pelo fogo enchendo-me as pupilas de vermelho.
Minhas vistas se desfizeram em sal e, quando ela teve certeza de que eu não gritaria, limpou as lágrimas do meu rosto. Perguntei, a voz fina de criança que perde o controle da bexiga, se Douglas havia feito aquilo. Ela deu de ombros.
— Eu gosto.
Os dedos acariciaram as dezenas de queimaduras que começavam acima do púbis, como pelos macios de filhotes de gato. Pretendi puxá-la pelo braço, exigir que fôssemos imediatamente ao hospital. O estômago batendo ao passo do coração nauseado, contudo, me deteve. Exigia distância daquele corpo em decomposição. Assim que ela pegou no sono, fechei a porta e deitei-me no sofá.
Como podem imaginar, o sono me evadia. A carne fustigada de minha irmã entalhara-se em minhas pálpebras. As bolhas turvas de seu torso estouravam em minha faringe como doença infecciosa. Tentei respirar fundo, mas os pulmões afogavam-se em sangue sarapintado de fuligem, forçando-me a levantar. Com pés de bailarina, atravessei o túnel mergulhado no negrume até o banheiro. Rodopiei em uma vertigem e coloquei um comprimido de zolpidem embaixo da língua.
Sei que é isso que mamãe usa contra mim. Afirma que tomei o sonífero antes. Insiste que vi a mensagem da sogra de Nina e, sugestionada pela notícia da tragédia, me entreguei ao delírio.
— Não levem em conta essa daí. Vê coisas. Ou inventa, não sei. O que é pior, uma filha louca ou malévola? — repete a cada esquina, retorcida tal qual ameixa machucada pelo desgosto.
Fala do que não sabe. Meu celular estava silenciado. E o sonífero mal começara a derreter quando o espelho me contou que a escuridão já não andava desacompanhada, como é de seu feitio. Uma luz trêmula lhe dava as mãos, projetando nas paredes um teatro de sombras como os que criávamos quando pequenas.
No lugar dos contornos amigáveis de uma borboleta, porém, distingui no concreto os ombros agigantados de Nina. Esgueirei o olhar quarto adentro, o fígado latindo como cães diante de um invasor. Uma vela solitária iluminava minha irmãzinha ajoelhada aos pés da cama, em frente à sua filha, os cachos escondendo as costas nuas. Baixinho, Nina cantava:
Brilha, brilha estrelinha
Quero ver você brilhar.
Com cuidado, levantou a chama. Por um instante, o rosto da neném se fez visível, seus gritos interpelados pela blusa de cetim enfiada na boquinha. Sua mãe passou um isqueiro pelos pés diminutos, o peitoral já coberto de vesículas supuradas.
Faz de conta que é só minha
Só pra ti irei brilhar.
Puxei sua cabeleira tão forte que nem um fio saiu do lugar. Corri tão rápido que minhas pernas não se moveram. Chamei a polícia tão alto que, ao se virar, Nina abriu um sorriso de covinhas.
— Eu gosto tanto do cheiro — e a labareda deixou de queimar. Soltou a mão do escuro, que penetrou-me os ossos como fogueira fria. Imobilizou-me até a bochecha sentir o beijo estalado de Nina, o ouvido registrar sua despedida, o peito sentir o bater da porta da frente, e o corpo, enfim, desabar.
Só despertei na tarde seguinte, com os chamados de mamãe. Foi então que soube do incêndio na casa de Nina e da morte de seu marido. Esse fogaréu que começou justo antes de ela me procurar, embora vocês digam que não há evidências de que ela esteja envolvida, nem de que passou por minha casa.
Prestem atenção: ela queria que eu soubesse. Precisava que alguém visse seu interior exposto e ainda fosse capaz de amá-la antes de sumir. Se insisto em minha história, é porque sou eu essa pessoa. Mamãe a quer inocente, por isso tenta me desacreditar. Já eu a quero, sejam suas ações dignas ou hediondas, seja ela boa ou má.
Talvez isso faça de mim um monstro.
Não sei.
Dizem que o tempo nesses casos é precioso. Não vou perdê-lo tentando negar.



que imagens asquerosas (amei kkkkk)
primeira vez que vejo esse conceito de personagem e foi tenebroso pqp
tem pano pra manga uma história de uma irmãzinha dessa